APRESENTAÇÃO

Ao fim da primeira metade da década de 60 o carnaval de rua na cidade do Rio de Janeiro já apresentava claros sinais de declínio. Na zona sul da cidade praticamente inexistiam as manifestações populares, os blocos de sujo eram coisa do passado. Apenas pequenas expressões, indivíduos ou grupos, familiares muitas vezes, ainda teimavam em abrir e expor sua face carnavalesca, livre e espontânea, pelas calçadas e pelas ruas próximas às suas moradias. Eram manifestações verdadeiras mas tolhidas pelo processo de esquecimento cultural, popular, continuado, que emudecia o povo em sua grande festa. Quase domésticas, começavam e terminavam ali mesmo, bastavam-se. Outras formas estruturadas de carnaval se fortaleciam, mas sobretudo no centro da cidade. As escolas de samba iniciavam sua vitoriosa trajetória junto à classe média, os blocos organizados eram reconhecidos e mereciam programação oficial e até, ainda, os bailes fechados, exceções da manifestação coletiva.

001 Banda de Ipanema 2As ruas da zona sul eram um silêncio, justamente quando o calendário, permissivo pela própria história, autorizava e chamava a alegria. A ditadura militar estava em seu primeiro ano e muitas tristezas se anunciavam. A cultura popular sofria os reflexos do difícil momento, do imprevisível, da censura incipiente. O esforço exigido para sua recuperação deveria ser multiplicado. A perspectiva da reconquista do espaço cultural, espaço de expressão, justificaria aquele esforço. No carnaval de rua não era diferente, para a sua recuperação seria necessário tentar. Juntar as pessoas e tentar.

Amigos – entre eles alguns fundadores da Banda de Ipanema – haviam visitado Ubá, em Minas Gerais, e conhecido uma de suas tradições locais: o desfile da Phylarmônica Em Boca Dura de Ubá, uma agremiação carnavalesca que desfilava pelas ruas da cidade, com seus integrantes cada um tocando, se assim se poderia dizer, um instrumento musical. O som resultante, nulo em harmonia, era todavia forte o suficiente para, com sua irresistível desarrumação melódica e extremo descompasso, despreocupadamente caótico, tornar-se hilariante, um desfile contagiante para todos. A cidade festejava sem parar. Essa experiência iria dar frutos.

Naquele início de fevereiro de 1965 perdurava o silêncio das ruas. O mesmo grupo de amigos, com outros mais, igualmente pioneiros, reuniu-se para preparar o que seria o anteprojeto da banda que iria estrear, duas semanas antes do carnaval, precisamente no sábado dia 13 de fevereiro. Naquele dia, cerca de 30 amigos estavam desfilando pelas ruas de Ipanema, a partir da Praça General Osório. Também eles tentavam, impunemente, à imagem de seus colegas inspiradores de Ubá, reproduzir algum som audível e compreensível em seus instrumentos. Inútil registrar o som, mas afirmava-se a alegria, e foi assim que ela desfilou em seus primeiros anos, enquanto possível conciliar os mestres amadores do som com os profissionais do ramo que lhes davam um mínimo indispensável de sustentação. Sim, porque em breve tempo a multidão era de tal ordem que não havia mais espaço para os músicos amadores. O carnaval de rua renascia na zona sul da cidade. Nascia e crescia a Banda de Ipanema, com a irreverência e o espírito democrático, únicos, que até hoje a caracterizam.

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A Banda de Ipanema não inventou a alegria carioca. Desvelou-a apenas, desvendou-a para toda a cidade. Multiplicou-se, aberta ao povo, obra do povo. Uma banda em cada bairro, pregava uma de suas faixas, YOLHESMAN CRISBELES à frente. Ainda é assim.

Por que a Banda toca o Carinhoso em todos os seus desfiles, na esquina de Joana Angélica com Visconde de Pirajá?

Os fatos são os seguintes:

Com muitas histórias para lembrar e contar, podemos dizer, parodiando Monarco cantando a nossa Portela que, se formos falar da Banda de Ipanema, hoje não iremos terminar.

Por esse motivo, falaremos aos poucos nestas nossas páginas, história por história. E a primeira que vamos contar, agora, é, para todos nós, emblemática.

Por que a Banda toca o Carinhoso?

No meio da tarde do dia 17 de fevereiro de 1973, sábado, ao início do 1º desfile da Banda de Ipanema – 2  (duas) semanas antes do carnaval, como é de nossa tradição – com a Banda já pela metade na Rua Prudente de Morais, formávamos um pequeno grupo, ainda na Praça General Osório, quando fomos surpreendidos por um menino que chegou correndo, esbaforido da Igreja N. Sra. da Paz e nos disse, assustado, da morte de Pixinguinha, pouco antes, durante um batizado do qual era padrinho, como viemos a saber logo após.

Fomos testemunhas da cronologia dos fatos: Pixinguinha morreu antes da passagem da Banda pela Igreja N. Sra. da Paz, antes mesmo do início de nosso desfile.

Ao sabermos da sua morte nossa primeira reação foi a de questionar se deveríamos cancelar imediatamente o desfile, já iniciado, mas ainda ao largo da Praça General Osório.

Entendemos que não havia mais como fazê-lo: era muita gente, o espaço já era longo para uma explicação dramática, decidimos, surpreendidos e tristes, seguir em frente, avisar a multidão quando possível, não subtrair de ninguém o pouco que àquela altura sabíamos e que já era muito. Bastava saber que não tínhamos mais nosso grande Pixinguinha.

A notícia espalhou-se com rapidez. Em breve tempo, no próximo quarteirão, debaixo de um grande e inesquecível temporal, praticamente todos já sabiam do fato.

Foi assim, sabedora, que a Banda, retornando à Visconde de Pirajá pela Rua Maria Quitéria, como fazíamos àquela época, iniciou seu percurso ao longo da Praça N. Sra. da Paz até aproximar-se da Igreja.

Naquele momento, no entanto, é que soubemos do corpo de Pixinguinha ainda presente em seu interior. A Banda parou defronte à Igreja – alguns amigos foram ver o Pixinguinha – e, em seguida, veio a ideia coletiva de homenagem à grande figura falecida.

Foi aí, então, que, pela primeira vez, a Banda tocou e o povo cantou, emocionado, o Carinhoso, em homenagem ao seu autor, gênio da Música Popular Brasileira, corpo presente ao lado.

Daí para a frente todos sabem: a Banda para, em todos os seus desfiles, na esquina da Rua Joana Angélica com Visconde de Pirajá, em retorno ao seu ponto de partida, na Praça General Osório. Nessa parada, tocamos e cantamos, todos, o Carinhoso, em ansiado ato de reverência a Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, uma tradição da Banda de Ipanema que vai prosseguir, definitiva.

Salve Pixinguinha!

YOLHESMAN CRISBELES!

Claudio Pinheiro

   

ALGUNS HOMENAGEADOS

Oscar Niemeyer, Carlos Drummond de Andrade, Eneida, Leila Diniz, Velha Guarda da Portela, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Délia e Laura – as “rainhas da banda”-, Braguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Marlene, Emilinha, Mario Lago, Fernando Pamplona, Jaguar, João Saldanha, Grande Otelo, Sergio Cabral, Lan, Carolina Cardoso de Menezes, Violeta Cavalcanti, Jota Efegê, Beth Carvalho, Alcione, Elza Soares, Dª Ivone Lara, Dª Zica, Dª Neuma, Janaina Diniz, Luiza Brunet, Caubi Peixoto, Clóvis Bornay, Zé Kéti, Martinho da Vila, Haroldo Costa, Jamelão, João Bosco, Hermínio Bello de Carvalho, Nana Caymmi, Carmen Costa, Zezé Gonzaga, Zezé Mota, Irmãs Marinho, Helena Cardoso, Enoli Lara, Eliana Pitman, Virgínia Lane, Waldinar Ranulfo, Fausto Wolf, Ferdy Carneiro, Angela Maria, Ademilde Fonseca, Machadão, Ziraldo, Dóris Monteiro, Dodô da Portela, Rubem Confete, Ângela Leal, Cordão da Bola Preta, Maria Vasco, João Roberto Kelly, Nelson Sargento, Bibi Ferreira, Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba, Retiro dos Artistas, Chico e Paulo Caruso, Cacique de Ramos e o Jongo da Serrinha. Em 2014 homenageamos Aracy de Almeida, Dorival Caymmi e Lupicínio Rodrigues. Em 2015, no 50º aniversário da Banda, iremos homenagear Grande Otelo, Orlando Silva, Humberto Teixeira, Aurora Miranda, Haroldo Barbosa, Fernando Lobo e outros maiorais.

FUNDADORES

Albino Pinheiro, Armando Rozario, Caio Mourão, Edson Catinari, China, Claudio Amaral, Claudio Pinheiro, Darwin Brandão, Douglas Eibeen, Ferdy Carneiro, Bernardo Figueiredo, Ferreira Gullar, Glaudir, Josef Guerreiro, Henrique Grosso, Hugo Bidê, J. Ruy, Marat, Martinho Campos, Ney, Paulinho Pompom, Paulo César Saraceni, Paulo Góes, Peter, Raul Hazan, Renê Poof, Roniquito, Sabino Barroso, Sérgio Cabral, Sergio Cherques, Sergio Saraceni, Silo Costa, Zélio, Zequinha Estelita e Ziraldo.

DIRETORIA

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Eduardo Mendes, Claudio PInheiro e José Ruy Dutra

A HISTÓRIA CONTINUA…

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Desde sua fundação, em 1965, desfila pelas ruas de Ipanema initerruptamente e sempre em três datas: no sábado, anterior em duas semanas, no sábado e na terça-feira do Carnaval.

Desde 2003 saudamos o centenário de nascimento de grandes figuras e entidades da nossa música popular e das artes brasileiras: Ari Barroso em 2003, Lamartine Babo em 2004 e Ismael Silva, em 2005. Em 2006, André Filho, Radamés Gnattali e Alcir Pires Vermelho. Em 2007, o arquiteto maior Oscar Niemeyer, o grande Braguinha, o João de Barro, e Dercy Gonçalves. Em 2008 tivemos Cartola, Almirante, Silvio Caldas, Zé da Zilda, Vicente Paiva e outros mais. Em 2009 lembramos Ataulfo Alves, Carmen Miranda, Mano Décio da Viola, Castro Barbosa e J. Rui. Em 2010 Noel Rosa, Custódio Mesquita, Vadico, Nássara, Haroldo Lobo,  Adoniran Barbosa, Copinha, Jorge Veiga, Manezinho Araújo e Cristóvão de Alencar. Em 2011, Mário Lago, Assis Valente, Sinval Silva, Pedro Caetano, Nelson Cavaquinho, e Peterpan. Em 2012, Herivelto Martins, J. Cascata, Jorge Amado, Luiz Gonzaga e Nelson Rodrigues. Em 2013, saudamos o centenário de Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Jamelão, Ciro Monteiro, Wilson Batista e Paulo Tapajós, entre tantos merecedores de nossa lembrança. Em 2014 homenageamos os fundadores da Banda, já que comemoramos o nosso 49º aniversário, no nosso 50º desfile em Ipanema.

Desde 2000 a Banda de Ipanema reverencia a memória de Albino Pinheiro, seu fundador, presidente e grande incentivador até seu falecimento em 1999.

Os desfiles da Banda de Ipanema têm imensa ressonância no Rio de Janeiro, no país e no exterior. Vem gente de todo lugar: cariocas e fluminenses, paulistas, mineiros, todos os brasileiros, muitos de fora. Foliões e espectadores. São numerosos os exemplos de turistas que chegam à nossa cidade exclusivamente para participarem dos eventos ou simplesmente acompanhá-la, registrá-la.

A Banda de Ipanema reúne dezenas de milhares de pessoas em seus desfiles. De todos os tipos, de todas as origens, em multidão surpreendentemente organizada, à sua maneira livre, e vive muito além dos limites geográficos de seus desfiles. A Banda é esperada, tradicional, referida por muitos, no bairro e na cidade, no exterior.

O primeiro desfile da Banda de Ipanema, a duas semanas do calendário oficial, coincide com o início do carnaval carioca. Assim tem sido ao longo dos anos, decreta-se a alegria das ruas.

Recebimento da placa que decreta a Banda de Ipanema como o primeiro bem imaterial tombado do Rio de Janeiro.

FATOS IMPORTANTES

PATRIMÔNIO CULTURAL CARIOCA

A Banda de Ipanema foi declarada oficialmente patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro – o primeiro bem imaterial contemplado com esse reconhecimento – através do Decreto Municipal nº 23.926, de 23/01/2004.

TRADIÇÃO

A Banda de Ipanema é, no gênero, a maior, a mais antiga e tradicional banda do Rio de Janeiro e do país, com as suas características de expressão carnavalesca espontânea das ruas, há muito identificada com a nossa mais legítima cultura popular.

INFRA-ESTRUTURA

A Banda de Ipanema não usa carro de som em seus desfiles, apenas o canto direto de seus integrantes, apoiados pelos seus músicos – sopro e percussão – amadores e profissionais, tradicionais, que há anos nos acompanham. Todos os seus efetivos participantes, inclusive os músicos, vêm a pé, pé no chão, e é assim que o povo faz a festa. Essa é uma das características da Banda, desde o seu primeiro desfile em 1965.

CRIANÇAS

A Banda de Ipanema foi a precursora da alegria infantil no carnaval das ruas. As crianças sempre mereceram uma privilegiada e indispensável atenção em seus desfiles.

HOMENAGENS

A Banda de Ipanema destaca, a cada ano, pessoas e instituições identificadas à cultura popular brasileira, às suas variadas expressões da música e das artes em geral. São os seus homenageados.

REPERTÓRIO

As músicas tocadas e cantadas são as dos carnavais eternos e outras, eleitas, as carnavalizadas, sempre definitivas, – as marchinhas, as marchas-rancho, os frevos, os sambas de terreiro ou de quadra, sambas canção, de empolgação e de exaltação, sambas de enredo, choros, maxixes, baiões e forrós, cirandas, toadas, suítes, valsas, muitas mais –, aquelas que o povo consagrou ao longo dos anos, inclusive muitas recentes. Nenhum interesse comercial jamais conduziu seu repertório.

ACESSO

O acesso à Banda de Ipanema é absolutamente livre. Seu perfil básico é o da alegria solta dos seus integrantes, os mais diversos, às dezenas de milhares a cada dia, um grande espaço democrático e de irreverência que a caracterizam.. A espontaneidade, base histórica do carnaval de rua, essência da expressão popular, é inteiramente respeitada e garantida. Não usa cordas de isolamento. Todos são protagonistas em seus desfiles.

LICENÇAS

Todos os desfiles e apresentações da Banda de Ipanema, sua programação e seus trajetos, são devidamente amparados pelas respectivas autorizações e providências por parte dos órgãos municipais e estaduais relacionados aos eventos.

“UMA BANDA EM CADA BAIRRO”

A Banda de Ipanema é grande responsável pela difusão das bandas e blocos carnavalescos por toda a cidade, e especialmente pela zona sul, e até além do Rio de Janeiro, apadrinhando ao curso dos anos muitas dezenas de iniciativas similares. O carnaval das ruas foi revitalizado a partir do surgimento e multiplicação das bandas e outras formas de organização do carnaval popular, apoiados na trajetória e no sucesso da Banda de Ipanema – “Uma banda em cada bairro”, dizia uma de nossas faixas de desfile.

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Camisas dos desfiles anteriores

BANDEIRA DA BANDA

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